segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Contos para a hora do Chá



O PRINCÍPIO E O FIM

Um estudante de Zen partiu acidentalmente um vaso muito valioso pertença de seu mestre. Ao ouvir que este se aproximava, o estudante apanhou os cacos do vaso e escondeu-os no seu hábito.
Quando o mestre entrou na sala, o estudante perguntou-lhe:
- Porque morremos, mestre?
- É algo natural - respondeu. - Tudo tem um princípio e um fim. Tudo deve viver o tempo que lhe está destinado, e nada mais. Depois deve morrer.
O estudante deixou então cair os cacos do vaso no chão e declarou:
- Chegou a hora da morte do seu vaso, mestre.

SHIRU, CHANG e RAMIRO CALLE, 101 cuentos clásicos de la China

sábado, 23 de janeiro de 2010

Origem da palvra "Chá"



“Cha” ou “tay”? A palavra mais habitual na China para chá é “cha”, nomeadamente em mandarim e cantonês, mas é “te” (pronunciado “tay”) no dialecto de Xiamen (Amoy), na província de Fujian, onde, a partir de 1602, se estabeleceram os “Hong Mao”, os mercadores holandeses da Verenigde Oost Indische Compagnie (Companhia Holandesa das Índias Orientais ou VOC), que adoptaram e disseminaram a designação local. Tay evoluiu para tea no território britânico embora em alguns locais, como em Liverpool, se designe a bebida nacional britânica por “tchá”. Na Europa, apenas gregos, russos e portugueses escaparam a esta etimologia mas em muitas outras áreas do mundo, como na Turquia, Ásia e países árabes, a bebida é designada por uma variante de “chai” ou “shai”.
O caractere chinês para chá é 茶, mas tem duas formas completamente distintas de se pronunciar. Uma é 'te' que vem da palavra malaia para a bebida, usada pelo dialecto Min-nan que se encontra em Amoy. Outra é usada em cantonês e mandarim, que soa como cha e significa 'apanhar, colher'.

Portugal na história do Chá

Os primeiros europeus a contactar com o chá foram os Portugueses que chegaram ao Japão em 1560.
Portugal teve, aliás, um importante papel na história desta bebida e não só por ter sido o primeiro país europeu a estabelecer rotas comerciais com a China, em 1515, mas porque, como é sabido, a ele se deve a chegada, pela mão de Catarina de Bragança, após matrimónio com Carlos II de Inglaterra, do chá à corte inglesa.
Em 1662, a princesa portuguesa chegou a Londres constipada e pediu uma bebida quente. Mas, na corte inglesa, o chá ainda não era conhecido. As damas de companhia de Catarina ensinaram então como se preparava um chá, com as ervas que trouxeram na bagagem
Não obstante, muitos historiadores ingleses defendem que o chá terá sido introduzido em Inglaterra, em 1579, por Christopher Borough.

Origem do Chá

As origens do chá quase se perdem no tempo, com narrativas que misturam a realidade com muitas lendas. A mais conhecida e divulgada remonta há 5000 anos, quando reinava na China o imperador Sheng Nong, um governante justo e capaz, homem de ciência e amante das artes. Preocupado com as epidemias que regularmente assolavam o Império do Meio, Sheng Nong promulgou um édito onde exigia que toda a água fosse fervida antes de ser consumida, uma medida de carácter higiénico que ainda hoje faz sentido em muitos lugares do mundo

A Lenda
Certo dia, no ano de 2737 a.C., num quente verão oriental, o imperador, de visita a uma das regiões distantes que governava, mandou parar a sua comitiva para que todos descansassem durante algum tempo. Os servos começaram então a ferver água para que a comitiva pudesse beber, mas algumas folhas provenientes de arbustos próximos foram arrastadas pelo vento caindo no recipiente em ebulição. Pouco a pouco, a água foi adquirindo uma tonalidade castanha. O imperador, curioso, decidiu provar a estranha infusão e ficou surpreendido pelo sabor extremamente agradável, tornando-se desde esse momento um grande adepto do chá, no que seria seguido pelo seu povo.
Se esta curiosa lenda tem algum fundamento… vale o que vale como todas as lendas! Não deixa, contudo, de imprimir uma aura fantasista e romântica ao nascimento do chá.

Dados oficiais
Sabe-se que a origem do chá remonta ao período imediatamente antes da ascensão da Dinastia T´ang ao poder, entre os anos 618 e 906. Esta família imperial presenciou à divulgação de uma bebida trazida dos Himalaias por monges budistas. O arbusto do chá, uma planta cujo nome científico é Camelia sinensis, crescia em estado selvagem nessa cordilheira asiática, mas foram os chineses que o domesticaram e começaram a cultivar em vastos campos muito bem organizados. Por volta do século IX, o chá fazia já parte dos hábitos dos chineses, como testemunhou o monge budista japonês Ennin, num relato escrito durante a sua viagem ao Império do Meio. Em 780 d.C., um outro monge budista, o chinês Lu Yu, escreveu o primeiro grande livro sobre o chá, o Ch´a Ching, (“Livro do chá”) onde descreve os métodos de cultivo e preparação utilizados no império.
Realça, aliás, Francis Ross Carpenter, no prefácio da tradução da obra, que Lu Yu, com os seus 20 tratados sobre o chá – incluindo um em que discute a importância da qualidade da água utilizada na elaboração desta bebida –, é o mentor da ritualização da preparação de chá.

Para além da China
A disseminação da bebida chinesa, usada para fins medicinais e também em mosteiros budistas enquanto auxiliar da meditação, para o seu vizinho nipónico não foi difícil. Neste aspecto, é ao monge Saicho (mais tarde Dengyo Daishi), fundador do budismo Tendai, que é atribuída a introdução do chá, no início do século IX, no Japão. Quanto aos diferentes modos de preparação das folhas de chá, assentes em distintos estágios de oxidação – fermentado(chá preto), semi-fermentado (oolong) e não fermentado (verde) – remontam à dinastia Ming (1368-1644 d.C.).
Por sua vez, a vasta fronteira da China com a Rússia facilitou, a partir de 1618, a disseminação do chá a terras de czares. De tal forma que este popularizou-se chegando aos diferentes estratos sociais russos e fazendo com que o samovar, utensílio muito apreciado e utilizado para o servir, adquiriu honras de duradouro símbolo da nação. Isto, sem que a Europa ficasse insensível à bebida – a comprová-lo estão o Delle Navigationi et Viaggi, escrito, em 1559, por Giani Battista Ramusio e os textos de frei Gaspar da Cruz, padre jesuíta português que veio a ser o primeiro ocidental a escrever sobre chá.

Lu Tung:"Tratado sobre o chá"

A primeira chávena humedece-me os lábios e a garganta.
A segunda chavena quebra a minha solidão.
A terceira chavena busca nas minhas entranhas, mas apenas encontra milhares de ideogramas absurdos.
A quarta chavena provoca uma leve transpiração - todos os males da minha vida saem pelos poros.
E à quinta chavena já estou purificado.
A sexta chavena transporta-me aos reinos dos imortais.
A sétima chavena - ah, não posso beber mais!
Só posso sentir a brisa do vento fresco que me levanta as mangas.
Onde está o Elísio? Deixe-me cavalgar sobre esta suave brisa que me leva até lá.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Fascínio antigo



O que é o mais maravilhoso para as pessoas que, como eu, seguem o caminho do chá?
A minha resposta: a unidade entre o anfitrião e o hóspede que se cria, coração com coração, quando se partilha uma chavena de chá... sente-se um só com a natureza e encontra-se a paz.
Soshitsu Sen